No dicionário, pioneiro é a qualidade dada àquele que abre caminhos, que designa um precursor, um desbravador. E essa é uma das características do conceituado neurologista Luiz Melges. Formado em medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, em 1978, foi o único da turma a optar pela especialidade de neurologia, tendo como chefe o professor Wilson Sanvito, numa época em que esta escolha era um grande desafio. Havia inúmeros diagnósticos, mas as ferramentas disponíveis para tratamento ainda eram mínimas. Mesmo assim, ele não desistiu.
Convidado por centros importantes como Albert Einstein, Nove de Julho e Hospital Panamericano, o espírito pioneiro de Melges falou mais alto e ele retornou a Marília, dando início a uma grande guinada na neurologia de toda região. O ano era 1982, quando ele aceitou ser professor da Famema (Faculdade de Medicina de Marília). “Queria enfrentar algo novo, mas não imaginava voltar. Deixei a Capital, que era a referência em saúde, e vim para Marília sabendo que teria que lapidar, trabalhar para fazer a neurologia crescer, criar um serviço nesta área. Fiz mestrado e doutorado na USP [Universidade de São Paulo] de Ribeirão Preto em neuromuscular, tendo como orientador o professor Amilton Barreira, e conclui o doutorado em 1996. Foi um período de muita dedicação, pois fazia as viagens para Ribeirão Preto toda semana. Já tinha minha família, meus filhos pequenos e contei com a ajuda da esposa. Porém, foi uma fase muito importante para minha formação, além do aprimoramento no conhecimento abriu-me muitas portas.”
Convidado por centros importantes na Capital, espírito pioneiro de Melges falou mais alto e ele retornou a Marília
Com a conclusão do doutorado, a ideia era criar dentro da faculdade um serviço especializado em doenças neuromusculares e neuroimunológicas que atendesse Marília e todas as cidades que pertencem a DRS-9 (Direção Regional de Saúde), que totaliza uma população de 1,2 milhão.
Em busca de aperfeiçoamento, Melges também foi atrás de conhecimento fora do país. Esteve nos Estados Unidos, na Universidade Estadual da Louisiana (LSU, sigla em inglês), em um centro de referência no tratamento de doenças neuromusculares, do professor Austin Sumner, onde aprendeu a realizar um exame chamado de eletroneuromiografia e trouxe a técnica para Marília. Este exame avalia a presença de lesões em nervos e músculos, como pode ocorrer em doenças como esclerose lateral amiotrófica, polineuropatias, Guillain-Barré, miastenia grave e outras miopatias. É fundamental para ajudar o médico a confirmar o diagnóstico e planejar o melhor tratamento.



Já na Espanha, em Barcelona, no serviço do doutor Xavier Montalban, aprofundou os conhecimentos em doenças neuroimunológicas. “Em Barcelona, também tive contato com alguns medicamentos neurológicos por infusão, ou seja, por via endovenosa. Esse procedimento é feito sem necessidade de internação, vejo como uma revolução os Centros de Infusão e conseguimos trazer isso para pacientes de Marília e região. A neurologia avançou muito após o ano 2000 em termos de diagnóstico, com a ressonância magnética e a tomografia computadorizada. Houve uma revolução, os diagnósticos ficaram mais claros e surgiram novos medicamentos, uma guinada total. Hoje é uma especialidade muito procurada.”
Além das inovações trazidas a Marília em termos de diagnóstico e tratamento, Melges foi também pioneiro na realização de biópsia muscular, um procedimento necessário para identificação de algumas doenças neuromusculares. “Fomos os primeiros na região a realizar uma biópsia de músculo em consultório, no ano de 1998, inclusive acompanhamos este mesmo paciente até hoje. Coletamos o músculo aqui e levamos para São Paulo para um exame específico. A ideia é que em breve possamos realizar tudo em Marília, trazer essa tecnologia para cá.”
Foi ele também que introduziu o uso da toxina botulínica na neurologia, na cidade e na região. O procedimento é realizado em seu consultório ou mesmo domiciliar. Atualmente, a toxina auxilia no tratamento de portadores de sequelas de AVC (Acidente Vascular Cerebral) ou pós-traumatismo craniano e raquimedular, de doenças que provocam uma distonia nos músculos da face, conhecida como tiques, além das enxaquecas crônicas, cefaleia tensional e dor crônica.
O neurologista participou ativamente do processo de implantação da residência em neurologia na Famema, que ocorreu em 2007. De lá para cá o serviço só cresceu, atraindo residentes de todo o Brasil. “A credibilidade que conseguimos alcançar tem atraído muitos residentes para cá, que ao término estão capacitados para realização de diagnósticos e procedimentos. Conseguimos formar estes profissionais, passando a eles informações que absorvemos ao longo de nossa atuação. Colocamos Marília no mapa da neurologia e hoje a cidade é conhecida em todo o país.”
Filha dá sequência a legado



● Natália Melges formada em Jundiaí, também fez residência em neurologia na Santa Casa de São Paulo.
Já diz o significado da palavra que pioneiro também pode ser aquele que prepara os resultados futuros. Melges fez e continua a fazer isso, passando suas experiências e seus conhecimentos a centenas de alunos e residentes.
Mal sabia que essa dedicação à neurologia chamaria a atenção da filha, a também neurologista Natália Melges. Formada em Jundiaí, também fez residência em neurologia na Santa Casa de São Paulo. Tendo o pai como exemplo, optou por se especializar na área de neuromuscular na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), sob a orientação do professor Acary Bulle Oliveira. Um caminho difícil, mas que vem sendo trilhado com muita dedicação. “Jamais imaginei que ela escolheria esse caminho, mas é fantástico. Sei que não é fácil, mas ela tem muita coragem”, destaca o orgulhoso pai.
Natália diz que sempre quis fazer neurologia, desde que participava das aulas de anatomia no primeiro ano de faculdade. O sistema nervoso central sempre chamou sua atenção e na hora de optar por uma especialidade não teve dúvidas. “Meu desejo era poder fazer residência no mesmo lugar que meu pai e consegui. Foi uma experiência excelente, que me deixou mais segura. Lá tive uma atenção especial, pois meus chefes tinham sido chefes do meu pai e eles têm muito respeito e admiração por ele, tanto que sempre me incentivaram a voltar para Marília para seguir esse legado. Com certeza, passar por essa experiência na residência me fez voltar para Marília muito bem preparada. E o crescimento é contínuo, hoje discuto casos com meu pai, trocamos informações e na Famema atuo como assistente voluntária na área de neuromuscular. É um aprendizado novo todos os dias. A neurologia é uma área fantástica e que conta com várias ferramentas que ajudam a diagnosticar as doenças de forma mais precisa, e assim conseguimos tratar e ajudar os pacientes.”
Neurologista participou ativamente do processo de implantação da residência em neurologia na Famema, que ocorreu em 2007
A neurologista comenta que hoje é possível não só diagnosticar, mas tratar doenças complexas com medicamentos que antes não estavam disponíveis, como no caso da esclerose múltipla, garantindo ao paciente uma qualidade de vida melhor. E mostra que o pioneirismo faz parte da família. “Há 20 anos não existia tratamento para esta doença. Hoje, o paciente é diagnosticado, recebe a medicação e leva uma vida normal. A doença passa a ser controlada. Nossa ideia é montar um Centro de Infusão focando nestes medicamentos para esta doença e também outras genéticas e degenerativas, como a distrofia muscular, atrofia muscular espinhal, doença de Pompe, dentre outras, para a região e até receber pacientes de outros estados”, diz.
Assim como seu pai, Natália investe em sua formação e na busca por aprimoramento e atualização. Tem feito diversos cursos na área pelo Brasil. Recentemente, esteve em um que tratou de doenças neuromusculares e degenerativas, como Parkinson e Alzheimer, e outro que apresentou nova pesquisa sobre uso de uma proteína para avaliar a evolução da esclerose múltipla. Além disso, ela alerta que muitas doenças estão relacionadas a fatores genéticos e hábitos de vida. “A prevenção ainda é o melhor remédio. As pessoas devem se atentar aos fatores ambientais, manter uma boa alimentação e atividade física regular, assim como a qualidade do sono. Sempre que perceberem alguma alteração que interfere na sua capacidade física ou mental devem procurar um especialista. A neurologia é capaz de fazer o diagnóstico e tratar a doença, mas muitas delas ainda são pouco conhecidas pelos pacientes e estes acabam procurando outras especialidades até chegarem a nós, neurologistas.”



Natália ainda chama a atenção para a importância do atendimento multidisciplinar no tratamento de doenças neurológicas. “A fisioterapia, psicoterapia, fonoaudiologia, a terapia ocupacional e acompanhamento nutricional colaboram muito para o tratamento e reabilitação do paciente com doenças como esclerose lateral amiotrófica, esclerose múltipla, polineuropatias, Acidente Vascular Cerebral, Parkinson, distrofias, dentre outras.”
Luiz Melges voltou recentemente do Congresso Europeu de Esclerose Múltipla em Berlim, na Alemanha, onde foram apresentados os mais recentes medicamentos para o controle da agressão autoimune que leva a lesões em células nervosas no cérebro e na medula. “O avanço destes medicamentos demonstram um controle total ou até mesmo a cura desta doença”, destaca o neurologista.
Doenças neuromusculares
As doenças neuromusculares são aquelas que acometem músculos (miopatia), nervos (neuropatias), regiões da medula espinhal (atrofia muscular espinhal, esclerose lateral amiotrófica) e a junção neuromuscular (miastenia). São doenças genéticas, hereditárias e progressivas e todas têm em comum a falta de força muscular. Uma delas, e que ficou muito conhecida nos últimos anos, é a ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica).
O físico Stephen Hawking foi diagnosticado com a doença aos 21 anos e morreu em março deste ano, aos 76 anos.
Melges voltou recentemente do Congresso Europeu de Esclerose Múltipla em Berlim, na Alemanha
A ELA é resultado de uma degeneração progressiva de neurônios, em especial dos que controlam as atividades motoras do corpo. Um dos seus primeiros sintomas é a perda de força e atrofia dos músculos. Não se sabe ao certo o que causa o problema, mas de cinco a 10% dos casos têm origem hereditária. Também conhecida como doença de Lou Gehrig ou de Charcot, é considerada uma enfermidade rara.
No Brasil, calcula-se que a incidência seja de dez a quinze pacientes por 100 mil habitantes.
Doenças neuroimunológicas
A neuroimunologia é uma área da neurologia que se dedica ao estudo e tratamento das doenças do sistema nervoso que são provocadas por alterações do sistema imune. O sistema imunológico ataca, por engano, as próprias estruturas (cérebro, medula e nervos). São as conhecidas doenças autoimunes, como a esclerose múltipla, miastenia grave e Síndrome de Guillain-Barré.
Embora a causa da doença ainda seja desconhecida, a esclerose múltipla tem provocado diversos estudos no mundo todo, o que tem possibilitado uma constante e significativa evolução na qualidade de vida dos pacientes, que são geralmente jovens, em especial mulheres de 20 a 40 anos.
A doença pode se manifestar com diversos sintomas, como fadiga intensa, fraqueza muscular, formigamento, alteração do equilíbrio e da coordenação motora, dentre outros. É importante destacar a necessidade do diagnóstico no início da doença, pois com o tratamento adequado há um controle total de sua progressão.
Outra doença autoimune que precisa ser mais divulgada é a Síndrome de Guillain-Barré. É uma doença que acomete os nervos, caracterizada por quadro de fraqueza e alterações da sensibilidade, que podem iniciar nas pernas, progredindo até os braços, podendo levar a uma dificuldade respiratória. Ultimamente ficou mais conhecida devido a epidemia de Zika vírus e chikungunya, doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti, o mesmo da dengue. Pode ocorrer também após uma infecção bacteriana intestinal. O neurologista é o único capacitado para diagnosticar e tratar esta doença.



Doenças neurodegenerativas
As principais doenças deste grupo são Parkinson e Alzheimer. A doença de Parkinson acomete mais indivíduos após 50 anos, com uma característica de provocar lentificação dos movimentos, fazendo com que a pessoa se apresente como um robô. Além disso, pode causar também tremor nas mãos, perda do olfato, alteração da expressão facial e do sono, voz baixa e letra pequena. O que chama mais atenção nesta doença são os distúrbios do movimento.
Já no Alzheimer é característica a alteração da memória, principalmente esquecimento de fatos recentes. É necessário estar atento a alterações como esquecer recados e compromissos, repetir perguntas, afirmações e histórias, contando-as como se fosse a primeira vez, não lembrar onde guardou algum objeto, de tomar medicações ou de datas recentes, como dia, mês e ano que está e ter dificuldade de lembrar itens da compra de supermercado, por exemplo. Hoje, além dos medicamentos disponíveis, estão em experiência novos remédios, que vão controlar a progressão desta doença.