De acordo com a psiquiatra clínica Andrea Midori Simizu Lopes, o Ministério da Saúde reconhece a violência sexual como questão de saúde pública e aponta que uma em cada quatro mulheres no mundo é vítima de violência de gênero com perda de um ano de vida potencialmente saudável a cada cinco anos. “No Brasil, 70% dos crimes contra a mulher acontecem no ambiente doméstico e são praticados, em sua maioria, pelos parceiros íntimos”, complementa.



● Andrea Midori Simizu Lopes atua na Associação Brasileira de Psiquiatria
Para Andrea, apenas 50% dos estupros são notificados, uma vez que a maior parte das mulheres se sente oprimida de ir até uma delegacia para realizar exame do corpo de delito, pelo medo de ser desacreditada e do sentimento de humilhação.
“A violência sexual difere de outras formas de violência porque fere a intimidade da mulher, fazendo com que seu próprio corpo seja uma constante lembrança de seu sofrimento, o que a prejudica tanto no âmbito físico quanto no emocional. Pode perturbar sua autoimagem e autoestima, seu senso de valor, de segurança e seu futuro. Durante o estupro, algumas mulheres podem apresentar uma reação de congelamento, ou podem não conseguir reagir de forma mais ativa [por estar embriagada ou por coação], o que pode levar a sentimentos de culpa sobre o ocorrido”, explica.
As consequências psíquicas da violência sexual na mulher podem ser divididas em sintomas relacionados ao trauma, sintomas depressivos, de ansiedade, disfunção sexual e alterações de comportamento. “O TEPT [Transtorno de Estresse Pós-Traumático] apresenta-se em cerca de 43% das mulheres que sofreram estupro. Consiste em reviver as cenas traumáticas, tanto em sonhos ou lembranças vívidas e angustiantes, extremo medo de situações que a lembrem do ocorrido. Vou exemplificar: passar pela rua em que o estupro ocorreu, isto gera sinais de ansiedade, além de se esquivar [evitação psicológica] dessas situações. Os sintomas podem durar meses e até mesmo anos quando não tratados”, ressalta.
Apenas 50% dos estupros são notificados e mulheres sofrem opressão ao procurar delegacia
Segundo a psiquiatra, os sintomas depressivos ocorrem na maioria dos casos (52,2%) com perturbações no humor, que podem tornar a pessoa melancólica ou irritadiça, provocar falta de prazer e alegria, desesperança, culpa, desânimo, excesso de fadiga, alterações em sono e apetite e grande dificuldade para realizar atividades habituais. “Em casos mais severos pode haver ideias de suicídio e tentativas de autoextermínio”, alerta.



Entre os sintomas apresentados estão medo, insegurança, angústia, hipervigilância, inquietação, raiva, resposta exagerada de sobressalto, sintomas físicos (taquicardia, palpitações, tremores, falta de ar, dores, diarreia, náuseas e vômitos), insônia e falta de concentração.
Andrea detalha que a disfunção sexual representa a diminuição do desejo e prazer sexual, dispareunia (dor durante a relação sexual), ou, por outro lado, significa o aumento da prática sexual de forma compulsiva (numa tentativa de retomar o controle sobre seu corpo e emoções sobre a sexualidade).
Para STF, criminalizar a mulher que deseja abortar gera custos sociais e para o sistema de saúde
Ainda conforme a médica, as alterações de comportamento envolvem abuso de substâncias como álcool, compulsão alimentar e consequente obesidade, diminuição dos cuidados próprios e com sua saúde, diminuição na qualidade de vida, faltas no trabalho, dificuldades conjugais, familiares e sociais. “A mulher vítima de abuso sexual precisa criar uma rede de apoio para se reerguer. Deve cercar-se de amigos, familiares e profissionais da saúde mental, como terapeutas e psiquiatras e tratar de suas feridas físicas e emocionais. A tendência de muitas mulheres é se isolar num manto de culpa, dor e desesperança, mas elas não podem esquecer que não é isso que a define como pessoa. Esse pode ser um capítulo triste em sua vida, mas que pode ser superado e seguido por muitos outros até um final feliz”, conclui.



Aborto após caso de estupro
Em 2012, o aborto foi permitido em caso de fetos anencéfalos (com má formação cerebral) pelo STF (Supremo Tribunal Federal). Em 2016, uma das turmas do tribunal também absolveu funcionários de uma clínica de aborto. Na época, o ministro do STF, Luis Roberto Barroso, disse que a criminalização não protegia direitos sexuais e reprodutivos, autonomia, integridade psíquica e física e saúde da mulher. E, como confirmam os números, isso gera um impacto desproporcional sobre as mulheres mais pobres. “Além disso, criminalizar a mulher que deseja abortar gera custos sociais e para o sistema de saúde, que decorrem da necessidade de a mulher se submeter a procedimentos inseguros, com aumento da morbidade e da letalidade”, decidiu na ocasião.
Senadores contrários ao aborto reviveram neste ano uma proposta que pode impedir a interrupção da gravidez até mesmo em casos de estupro. É a PEC 29/2015, que se aprovada altera a Constituição e proíbe o procedimento em qualquer circunstância. Atualmente, o aborto pode ser feito legalmente em caso de risco de vida à mulher, estupro e anencefalia.